DRY-NEEDLING EM TORNOZELO: REDUÇÃO DE 71% DA DOR EM ATLETAS COM SÍNDROME DO ESTRESSE TIBIAL MEDIAL

DRY-NEEDLING EM TORNOZELO: REDUÇÃO DE 71% DA DOR EM ATLETAS COM SÍNDROME DO ESTRESSE TIBIAL MEDIAL
Você é atleta e sente aquela dor persistente na tíbia, logo abaixo do joelho, que piora com a corrida e o salto? Essa dor que começa no início do treino e às vezes desaparece durante o exercício, mas volta com força depois?
Você pode estar enfrentando a Síndrome do Estresse Tibial Medial (MTSS), também conhecida como “síndrome do sóleo” — uma das lesões mais comuns em atletas, com incidência entre 4% e 19% em populações esportivas.
Durante anos, o tratamento dessa condição se limitava a repouso, anti-inflamatórios e fisioterapia convencional. Mas em 2025, um ensaio clínico randomizado de alta qualidade publicado no Journal of Manual & Manipulative Therapy (Singh et al.) trouxe uma solução diferente: dry-needling (agulhamento seco) direcionado ao músculo sóleo.
Os resultados? Redução de 71% da dor em apenas uma semana — de 7/10 para 2/10 na escala de dor.
- O QUE É SÍNDROME DO ESTRESSE TIBIAL MEDIAL (MTSS)?
Conforme descrito por Singh et al. (2025), a MTSS é caracterizada por dor ao longo da borda posteromedial da tíbia, palpável em uma distância de pelo menos 5 centímetros.
Características principais:
- Dor que piora com exercício (corrida, salto, treino de força)
- Localização: borda interna da tíbia, logo abaixo do joelho
- Duração: pode ser aguda ou crônica (mais de 3 meses)
- População afetada: principalmente atletas
Por que acontece?
Singh et al. (2025) explicam que a MTSS é causada por uma combinação de fatores:
- Periostite tibial: inflamação do periósteo (membrana que reveste o osso)
- Tendinopatia: disfunção dos tendões (especialmente do sóleo, tibial anterior e tibial posterior)
- Reação de estresse tibial: resposta do osso ao estresse repetitivo
- Sobrecarga mecânica: treino em estado de fadiga, superfícies duras, técnica inadequada
O músculo sóleo desempenha papel central. Conforme o estudo, uma estrutura aponeurótica forte chamada “ponte do sóleo” se prende ao periósteo da tíbia. Quando o sóleo contrai ou se estira, essa aponeurose transfere estresse de tração para sua inserção na borda medial da tíbia — exatamente onde a dor ocorre.
- O ESTUDO: 50 ATLETAS, PROTOCOLO RIGOROSO
Singh et al. (2025) conduziram um ensaio clínico randomizado duplo-cego com as seguintes características:
Participantes:
- Total: 50 atletas universitários (26 homens, 24 mulheres)
- Idade: 18-25 anos
- Critério de inclusão: diagnóstico de MTSS com dor por mais de 3 meses
- Alocação: 25 no grupo dry-needling, 25 no grupo controle
Metodologia:
- Randomização por computador
- Duplo-cego (participantes e analista estatístico cegos)
- Duração: 5 meses de coleta de dados (outubro 2023 a fevereiro 2024)
- Protocolo: 3 sessões de dry-needling em uma semana
- Avaliação: antes e após a última sessão
Medidas de resultado:
- Dor: Escala Numérica de Classificação de Dor (NPRS) de 0-10
- Amplitude de movimento: Dorsiflexão do tornozelo medida com goniômetro universal
- O PROTOCOLO DE DRY-NEEDLING (COMO FUNCIONA)
Singh et al. (2025) descrevem em detalhes o procedimento:
Técnica:
- Posicionamento: Atleta em decúbito ventral (deitado de barriga para baixo) ou posição de Faber (perna afetada em figura de quatro sobre a perna não afetada)
- Localização do ponto gatilho: O fisioterapeuta palpa manualmente para localizar o ponto gatilho miofascial (MTrP) no músculo sóleo
- Higiene: Limpeza da pele com álcool isopropílico 70%
- Inserção da agulha:
- Agulha de aço inoxidável 0.25 × 40 mm
- Inserção até 40 mm de profundidade
- O músculo sóleo é mantido em “pinça” (pincer grip) para evitar estruturas neurovasculares
- Resposta de contração local: A agulha é movida até obter a primeira resposta de contração local (local twitch response — LTR)
- Permanência: Agulha deixada no local por 15 minutos após a primeira LTR
- Alongamento: Após a retirada, alongamento ativo do sóleo por 30 segundos em posição de pé
Frequência:
- 3 sessões por semana
- Duração total: 1 semana
- Alongamento do sóleo como exercício domiciliar no dia seguinte
- OS RESULTADOS: REDUÇÃO DE 71% DA DOR
Conforme Singh et al. (2025), os resultados foram impressionantes:
Grupo Dry-Needling (Intervenção):
| Medida | Pré-tratamento | Pós-tratamento | Mudança | p-valor |
| Dor (NPRS) | 7 ± 1.30 | 2 ± 0.87 | -5 pontos (71% redução) | p < 0.001 |
| ROM Dorsiflexão | 19 ± 2.17° | 20 ± 2.30° | +1° (não significativo) | p = 0.138 |
Interpretação: A dor caiu de 7/10 (dor moderada a severa) para 2/10 (dor leve) em apenas uma semana. Essa redução é estatisticamente significativa e clinicamente relevante.
Grupo Controle (Sem Intervenção):
| Medida | Pré-tratamento | Pós-tratamento | Mudança | p-valor |
| Dor (NPRS) | 7 ± 0.99 | 7 ± 1.05 | Sem mudança | p = 0.009 |
| ROM Dorsiflexão | 18 ± 2.83° | 19 ± 2.58° | +1° (não significativo) | p = 0.708 |
Interpretação: O grupo controle manteve a dor em 7/10 — nenhuma melhora. Isso prova que a redução no grupo de dry-needling não foi por acaso ou placebo.
Comparação Entre Grupos:
Conforme Singh et al. (2025):
- Diferença de dor pós-tratamento: 2 ± 0.87 (DN) vs 7 ± 1.05 (controle) = -5 pontos de diferença (p < 0.001)
- Diferença de ROM pós-tratamento: 20 ± 2.30° (DN) vs 19 ± 2.58° (controle) = sem diferença significativa (p = 0.277)
- POR QUE FUNCIONA? OS MECANISMOS DE AÇÃO
Singh et al. (2025) discutem os mecanismos científicos por trás da eficácia do dry-needling:
Mecanismo 1: Aumento de Microcirculação
Conforme Dunning et al. (citado por Singh et al.), a inserção da agulha aumenta a microcirculação local, melhorando o aporte de oxigênio e nutrientes ao tecido lesionado.
Mecanismo 2: Modulação de Neurotransmissores
Singh et al. (2025) citam que a resposta de contração local (LTR) estimula:
- Aumento de opioides endógenos (analgésicos naturais do corpo)
- Redução de cortisol plasmático (hormônio do estresse)
- Redução de substância P (neurotransmissor da dor)
Mecanismo 3: Ativação de Vias Inibitórias Centrais
Staud e Price (citados por Singh et al.) sugerem que o dry-needling afeta:
- Sistema límbico (centro emocional do cérebro)
- Vias inibitórias descendentes centrais (sistema de bloqueio de dor do corpo)
- Estimulação de neurônios alfa (reduz sensibilidade à dor)
- Ativação do sistema noradrenérgico inibitório (reduz percepção de dor)
Em resumo: O dry-needling não apenas trata o local da lesão, mas também “desliga” os sinais de dor no cérebro.
- E A AMPLITUDE DE MOVIMENTO?
Uma descoberta importante do estudo de Singh et al. (2025) é que dry-needling NÃO melhorou a amplitude de movimento do tornozelo.
Resultados:
- Grupo DN: 19° → 20° (ganho de 1°, não significativo)
- Grupo controle: 18° → 19° (ganho de 1°, não significativo)
- Diferença entre grupos: p = 0.277 (não significativa)
O que isso significa?
Conforme Singh et al. (2025), “DN é eficaz na redução de dor a curto prazo, mas não tem efeitos positivos na amplitude de movimento da dorsiflexão do tornozelo.”
Isso sugere que:
- Dry-needling é excelente para dor, mas não é a solução completa para mobilidade
- Alongamento e exercício de força ainda são necessários para recuperar amplitude de movimento
- Protocolo combinado (DN + alongamento + fortalecimento) é provavelmente o ideal
- SEGURANÇA: EFEITOS COLATERAIS MÍNIMOS
Singh et al. (2025) relatam que nenhum efeito colateral adverso foi observado em seu estudo.
Efeitos colaterais potenciais (conforme literatura):
Conforme Brady et al. (citado por Singh et al.), os efeitos colaterais mais comuns do dry-needling incluem:
- Hematomas (roxos): 20% dos casos
- Sangramento leve: 20% dos casos
- Desconforto local: 20% dos casos
- Efeitos graves (raros): desmaio, dor de cabeça, náusea
No estudo de Singh et al. (2025): Nenhum desses efeitos foi relatado. Os atletas toleraram bem o procedimento.
Recomendação importante: Singh et al. (2025) enfatizam que “dry-needling deve ser realizado apenas por profissionais treinados que entendem completamente a técnica e seus riscos e benefícios potenciais.”
- LIMITAÇÕES DO ESTUDO (HONESTIDADE CIENTÍFICA)
Singh et al. (2025) reconhecem explicitamente as limitações:
- Período de seguimento curto: Apenas 1 semana de avaliação. Não sabemos se os efeitos duram semanas ou meses.
- Sem comparação com outras terapias: O estudo não comparou DN com ultrassom, exercício terapêutico ou outras modalidades.
- Tamanho da amostra: 50 atletas é um bom tamanho, mas estudos maiores seriam valiosos.
- Falta de medidas funcionais: Não foram avaliadas atividades como corrida, salto ou retorno ao esporte.
- Sem avaliação de ROM a longo prazo: Singh et al. (2025) sugerem que “medições de acompanhamento de ROM devem ser obtidas alguns dias após a aplicação de DN para reduzir o efeito da inflamação.”
Conclusão dos autores: ”Pesquisa adicional é necessária para validar essa afirmação” — ou seja, mais estudos são necessários para confirmar os achados.
- IMPLICAÇÕES CLÍNICAS: O QUE FAZER AGORA?
Conforme Singh et al. (2025), os resultados sugerem que:
Para Atletas com MTSS:
- Dry-needling é eficaz para dor a curto prazo — considere como parte do tratamento
- Combine com alongamento — o estudo incluiu alongamento do sóleo após cada sessão
- Continue atividade normal — Singh et al. (2025) permitiram que atletas continuassem correndo, saltando e treinando durante o estudo
- Não espere melhora de amplitude de movimento — use outras técnicas (alongamento, mobilização) para isso
Para Fisioterapeutas:
- Incorpore DN em protocolos de MTSS — especialmente para redução de dor
- Combine com exercício e alongamento — não use DN isoladamente
- Protocolo eficaz: 3 sessões em 1 semana, com alongamento domiciliar
- Avalie dor e função — não apenas amplitude de movimento
Cronograma de Recuperação:
- Semana 1: Redução significativa de dor (conforme Singh et al.)
- Semanas 2-4: Progressão de alongamento e fortalecimento
- Meses 2-3: Retorno gradual ao esporte
- Mês 3+: Prevenção com exercício de força e propriocepção
- COMPARAÇÃO COM OUTRAS TERAPIAS
Singh et al. (2025) citam que estudos anteriores mostraram:
| Terapia | Eficácia para Dor | Eficácia para ROM | Fonte |
| Dry-Needling | ✅ Excelente (71% redução) | ❌ Nenhuma | Singh et al., 2025 |
| Ultrassom | ⚠️ Moderada | ⚠️ Moderada | Citado por Singh et al. |
| Anti-inflamatórios | ⚠️ Moderada | ❌ Nenhuma | Citado por Singh et al. |
| Órteses | ⚠️ Moderada | ⚠️ Moderada | Citado por Singh et al. |
| DN + Alongamento | ✅ Excelente | ⚠️ Leve | Singh et al., 2025 |
Conclusão: Dry-needling é superior para dor, mas deve ser combinado com outras técnicas para recuperação completa.
- QUANDO PROCURAR AJUDA PROFISSIONAL
Sinais de que você precisa de avaliação:
- Dor na tíbia por mais de 3 meses
- Dor que piora com corrida ou salto
- Dor que não melhora com repouso e gelo
- Dor que afeta seu desempenho atlético
Diferenciação importante (conforme Singh et al., 2025): Singh et al. (2025) usaram teste de diapasão e ultrassom terapêutico para diferenciar MTSS de fratura de estresse da tíbia — uma condição mais grave que requer tratamento diferente.
No ICM, em Jundiaí, realizamos essa avaliação completa e aplicamos o protocolo de dry-needling conforme demonstrado por Singh et al. (2025), sempre combinado com alongamento e progressão de força.
CONCLUSÃO
Conforme Singh et al. (2025), “os resultados deste estudo sugerem que DN é uma intervenção eficaz para reduzir dor a curto prazo, mas DN não tem efeitos positivos na amplitude de movimento da dorsiflexão do tornozelo.”
Os números falam:
- Redução de dor: 71% em uma semana (7/10 → 2/10)
- Segurança: Nenhum efeito colateral adverso
- Eficácia: Significativamente melhor que nenhuma intervenção
- Limitação: Não melhora amplitude de movimento
Se você é atleta com síndrome do estresse tibial medial, dry-needling é uma opção baseada em evidências que pode aliviar sua dor rapidamente. Mas lembre-se: é apenas uma parte do tratamento. Alongamento, fortalecimento e progressão gradual do treinamento são essenciais para recuperação completa e prevenção de recidiva.
Dr. Ezer Temoteo Fisioterapeuta Especialista — IOT – FMUSP ICM — Instituto de Coluna e Movimento
REFERÊNCIA COMPLETA
Singh A, Wadhwani N, Sharma M. Short-term effectiveness of dry needling on pain and ankle range of motion in athletes with medial tibial stress syndrome: a randomized control trial. Journal of Manual & Manipulative Therapy. 2025;33(1):47-53. https://doi.org/10.1080/10669817.2024.2384611
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